domingo, 24 de outubro de 2010





VIVER


Nascemos aprendendo. Fato é que aprendemos indiferente do grau de inteligência ou da quantidade de valores materiais que possuímos, aprender é uma capacidade natural mas que pode ser também ser adquirida.

Aprender a falar, a ler, a escrever, a amar, enfim ao longo da vida aprendemos muitas coisas. Certa vez ouvi no consultório, alguém dizendo: “Aprendi a odiá-lo!

Ela claro estava se referindo a um sentimento que permitia que o outro (ex namorado), se mantivesse afastado até que ela própria conseguisse encontrar dentro de si, outro sentimento que permitiria que aquele homem não mais fizesse com ela aquilo que ela sim permitia.

Um pouco confuso não é? Começamos de novo então. Fomos aprendendo a amar socialmente e historicamente, desde os primórdios do Cristianismo ouvimos: “Ame a Deus e ao próximo como a si mesmo”, ou: Quando alguém lhe bater, ofereça a outra face

Talvez não tenhamos ouvido direito a frase ou a maneira que o meio ambiente permitiu fez com que só tenhamos feito a lição pela metade.

Porque será então que amar ao outro ou oferecer a outra face seja mais fácil do que aprender a amar a si mesmo?

Porque a maioria dos relacionamentos são pautados em um sentimento que permite se colocar de lado em busca da satisfação do outro?

O que aquela mulher estava tentando dizer com as palavras eu aprendi a odiá-lo?

Aprender a si amar e a se respeitar envolve questões mais profundas e sociais que imaginamos. Dizer ao mundo o quanto nos amamos pode ser entendido como uma maneira egoísta e tirânica por aqueles que ainda não entenderam a frase bíblica.
A nossa voz interior diz: Cuide-se! Ouça essa voz, não deixe para depois, não espere que o mundo o ame, nem que o seu parceiro ame você o suficiente para dois. Essa responsabilidade é sua.

A relação a dois deve ser vivida sem sobrecarga, sem que o outro tenha que carregar em si a responsabilidade por nossa vida. Deve ser algo como um complemento, onde os dois semeam e colhem de maneira igual, nem mais, nem menos para ambos.

Talvez o que aquela mulher precisava dizer é, Eu aprendi a me amar, de forma que não permito que ninguém mais me ponha de lado ou me faça sofrer. Porque entendi que devo isso a mim mesma e que a única pessoa capaz de me colocar para baixo sou eu.

A boa notícia para aquela mulher e para tantas outras pessoas é: Estamos vivos e assim temos a oportunidade de acordar e começar novamente.


Bons sonhos a todos!

domingo, 17 de outubro de 2010

Sobre a tristeza


A tristeza é uma dor que chega de mansinho e sem perceber invade-nos e nos dilacera. Como bem disse Renato Russo: "Eu nem sei porque me sinto assim, vem derepente um anjo triste perto de mim".

No consultório, é impressionante a quantidade de pessoas tristes que nos procuram, em sua maioria, as pessoas buscam desesperadas uma forma de deixar a tristeza de lado, colocá-la para fora de suas vidas.

Na terapia elas passam a entender e lidar com essa dor, descobrir de onde vem e compreender o porque esse "anjo triste", as vezes gruda e persegue tornando impossível nos ocuparmos dos afazeres do dia-a-dia.

Como conversar com esse anjo, dizer a ele que o entendemos, mas carecemos de uma certa distância.

Quando os sorrisos parecem falsos, quando o desânimo toma conta da gente, o que fazer? Como encontrar palavras ou ações que expressem ao outro o que estamos sentindo ou vivendo, as vezes falta coragem de lutar e a vontade é só de finalizar, acabar com a dor.

Nesses momentos, reflita, tente encontrar um jeito de dividir a sua dor, não fique sozinho, busque ajuda para passar por esse tempo, ninguém vive sozinho. Tente falar com aquele amigo do peito, a namorada, ou o vizinho, enfim as vezes o deserto nos ensina que logo adiante tem água fresca, e só depende nós encontrá-la.

Que os anjos tristes possam partir, mas que voltem. E voltando tragam consigo a experiência e a mudança. E com a mudança, a possibilidade de encontro com o EU e a possibilidade de fazer e viver de maneira plena e feliz.

domingo, 3 de outubro de 2010

Psicose pós parto


1-Introdução
A gravidez é um evento que é entendido socialmente como um estado de alegria e contentamento. Talvez por isso, exista uma dificuldade grande em admitir que nesta fase da vida algo poderia estar fora de controle e pior ainda, que este momento deverá ser compartilhado com outros profissionais da saúde além do ginecologista e do pediatra.
Quando falamos em quadros associados a transtornos mentais na gravidez, logo pensamos em depressão pós-parto, o que não está errado visto que é o transtorno mais comum do puerpério (Ruschi, 2007).
Segundo Ewald, 2005 a maioria das mulheres apresentam sinais depressivos após o parto. Isso acontece porque essas mulheres são obrigadas a encarar a criança como um ser separado de seu corpo e que se diferencia da fantasia concebida durante a gestação.

Portanto dá-se a passagem de algo interno, que dava uma sensação de completude a esta genitora, para algo externo que corta a sua onipotência materna (Ewald, 2005).

Segundo a autora, este será um tempo de adaptação, considerado normal, “da ordem da dor de uma separação” que tende a ser passado sem grandes intempéries pela nova genitora.
A psicose puerperal é um quadro mais raro, e a incidência encontrada foi entre 1,1 e 4 para cada 1.000 nascimentos (Bloch et al., 2003).
Em relação à separação na psicose, o que acontece segundo Ewald, 2005, é uma intolerância da mãe em aceitar essa separação. A fantasia inconsciente da mãe, vê no futuro bebê um objeto de completude e plenitude. Assim quando esta criança nasce, a mãe não reconhece como a criança da sua fantasia, a criança mítica, ocorrendo um estranhamento em relação a essa criança que será vista por vezes como persecutória e agressiva.
Aulagnier salienta que no nascimento de uma criança ocorre um encontro, de um lado uma mãe com seus desejos e fantasias inconscientes próprias da psique de um adulto, e de outro lado uma psique precária, cheia de demandas e necessidades próprias de um recém nascido. Esse encontro é entendido como uma violência primária, porém necessária para a estruturação do sujeito (Aulagnier, 1990).
Porém se essa violência perdura mais do que o necessário, instala-se o que o autor vai chamar de violência secundária que pode acarretar em sério risco de comprometimento psíquico.
Essa violência exerce um papel fundamental na organização psíquica da mãe e na estruturação psíquica do recém-nascido, podendo levar então a um quadro de psicose.
O delírio seria nesse contexto, uma tentativa de organização psíquica, uma forma de dar sentido onde não há sentido algum.

Trata-se de uma tentativa desesperada de tornar visível e dar sentido a vivências que encontram sentido numa representação no qual o mundo é apenas um reflexo de um corpo que se autodevora e se automutila (Aulagnier, 1990, p.65)

Se a psicose causa espanto para a população quando se trata de transtorno mental, associar a psicose com a gravidez é pouco aceitável até por profissionais da saúde fora do contexto psi. Existe medo e preconceito, foi o que observei em alguns hospitais por onde eu passei.


Para que isso possa ser transformado, é necessário mais informação e conhecimento por parte dos profissionais de saúde e da população em geral.


Ana Sardinha