domingo, 3 de outubro de 2010

Psicose pós parto


1-Introdução
A gravidez é um evento que é entendido socialmente como um estado de alegria e contentamento. Talvez por isso, exista uma dificuldade grande em admitir que nesta fase da vida algo poderia estar fora de controle e pior ainda, que este momento deverá ser compartilhado com outros profissionais da saúde além do ginecologista e do pediatra.
Quando falamos em quadros associados a transtornos mentais na gravidez, logo pensamos em depressão pós-parto, o que não está errado visto que é o transtorno mais comum do puerpério (Ruschi, 2007).
Segundo Ewald, 2005 a maioria das mulheres apresentam sinais depressivos após o parto. Isso acontece porque essas mulheres são obrigadas a encarar a criança como um ser separado de seu corpo e que se diferencia da fantasia concebida durante a gestação.

Portanto dá-se a passagem de algo interno, que dava uma sensação de completude a esta genitora, para algo externo que corta a sua onipotência materna (Ewald, 2005).

Segundo a autora, este será um tempo de adaptação, considerado normal, “da ordem da dor de uma separação” que tende a ser passado sem grandes intempéries pela nova genitora.
A psicose puerperal é um quadro mais raro, e a incidência encontrada foi entre 1,1 e 4 para cada 1.000 nascimentos (Bloch et al., 2003).
Em relação à separação na psicose, o que acontece segundo Ewald, 2005, é uma intolerância da mãe em aceitar essa separação. A fantasia inconsciente da mãe, vê no futuro bebê um objeto de completude e plenitude. Assim quando esta criança nasce, a mãe não reconhece como a criança da sua fantasia, a criança mítica, ocorrendo um estranhamento em relação a essa criança que será vista por vezes como persecutória e agressiva.
Aulagnier salienta que no nascimento de uma criança ocorre um encontro, de um lado uma mãe com seus desejos e fantasias inconscientes próprias da psique de um adulto, e de outro lado uma psique precária, cheia de demandas e necessidades próprias de um recém nascido. Esse encontro é entendido como uma violência primária, porém necessária para a estruturação do sujeito (Aulagnier, 1990).
Porém se essa violência perdura mais do que o necessário, instala-se o que o autor vai chamar de violência secundária que pode acarretar em sério risco de comprometimento psíquico.
Essa violência exerce um papel fundamental na organização psíquica da mãe e na estruturação psíquica do recém-nascido, podendo levar então a um quadro de psicose.
O delírio seria nesse contexto, uma tentativa de organização psíquica, uma forma de dar sentido onde não há sentido algum.

Trata-se de uma tentativa desesperada de tornar visível e dar sentido a vivências que encontram sentido numa representação no qual o mundo é apenas um reflexo de um corpo que se autodevora e se automutila (Aulagnier, 1990, p.65)

Se a psicose causa espanto para a população quando se trata de transtorno mental, associar a psicose com a gravidez é pouco aceitável até por profissionais da saúde fora do contexto psi. Existe medo e preconceito, foi o que observei em alguns hospitais por onde eu passei.


Para que isso possa ser transformado, é necessário mais informação e conhecimento por parte dos profissionais de saúde e da população em geral.


Ana Sardinha

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